CDI

Rede Povos da Floresta - A força da tecnologia: e-mail evita guerra contra os Ashaninka

Alto-Juruá, divisa do Brasil com o Peru, no Acre, terra dos Ashaninka. As mulheres cuidam da comida, das roupas e das crianças; os homens não descuidam da vigilância — na mata, nos rios e até nos programas de recados no rádio que vão ao ar todos os dias na região. Eles procuram pistas que indiquem a presença de invasores vindos do outro lado da fronteira: madeireiros peruanos de olho no cedro e no mogno existentes na reserva indígena. Assim que encontraram esse novo inimigo, em 2004, os índios Ashaninka logo perceberam que iam precisar de armas bem mais poderosas do que os tradicionais arcos e flechas, com que sempre se defenderam. Entre elas, uma antena para conexão, um painel solar para a energia e um computador. Foi Benki Piyanko*, o filho do cacique, que teve a idéia de levar tecnologia para os guerreiros da floresta, pois não havia forma mais rápida e eficiente de enfrentar madeireiros equipados com rádios sofisticados, de longo alcance, e armamentos de grosso calibre, incluindo fuzis.


A decisão da tribo de enfrentar os invasores virou mensagem eletrônica espalhada para ONGs de todo o mundo e enviada também para o governo federal. "Queremos solicitar a presença das autoridades do nosso país", escreveu um índio, ao relatar a situação. As reivindicações indígenas foram imediatamente recebidas na Presidência da República e logo repassadas à Polícia Federal e ao comando do Exército. Os arcos e flechas Ashaninkas receberam reforços, então, de um esquadrão de helicópteros das Forças Armadas, e o Estado respondeu ao e-mail vindo da floresta prendendo os invasores e dinamitando as toras retiradas de forma ilegal. Após a retirada dos helicópteros, os Ashaninka mantiveram a vigilância na fronteira, mas com uma diferença: contavam, agora, com a força da comunicação instantânea, que faz toda a diferença para quem vive isolado na mata. A munição tecnológica que ajudou os Ashaninka a combater os invasores veio do CDI, que já levou a Internet para quatro aldeias da Amazônia através da criação de Escolas de Informática e Florestania. “Os Ashaninka descobriram uma forma de usar a Internet como ferramenta de libertação. Essa prática deve ser adaptada a distintas realidades, mas sempre faz com que pessoas e comunidades possam, efetivamente, se inserir num novo mundo. O computador que rompeu o isolamento dos Ashaninka e favoreceu contatos estratégicos para a sobrevivência do grupo é o mesmo que beneficia outros milhões de brasileiros da cidade e do campo, com os mais diferentes perfis”, diz Rodrigo Baggio, diretor executivo do CDI.

Representando um bilhão de pessoas conectadas em todo o planeta, 150 milhões de páginas e dois milhões de e-mails por segundo cruzando os continentes na velocidade de um clique, a Internet consegue mostrar, até mesmo através de um povo com tradição guerreira milenar, o poder da tecnologia. *Líder Ashaninka e agente agroflorestal, Benki Piyanko conquistou em 2004 o Prêmio Direitos Humanos − único na categoria individual concedido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República − por ter conduzido, de forma pacifica, o movimento de seu povo contra a invasão de madeireiros peruanos no Acre.


Profundamente triste por ver os Ashaninka irem à guerra, ele decidiu mobilizar instituições federais e estaduais e também a opinião pública mundial para impedir mais mortes e a destruição de florestas nos dois lados da fronteira. Também estavam em jogo questões de saúde, derivadas da poluição dos rios por restos de madeira, e o sensível relacionamento com os índios de mesma etnia que habitavam em território peruano. Benki já foi secretário do Meio Ambiente de Marechal Taumaturgo, município onde ficam as terras Ashaninka. A aldeia se situa no vale do Juruá (cercada pelos rios Amônia, Envira, Breu e Tarauacá), área que perdeu quase oito mil hectares, dos seus 87 mil, em apenas cinco anos, por causa da devastação provocada pelos invasores peruanos. Segundo Piyanko, “enquanto tantos brasileiros lutam e trabalham para preservar o meio ambiente e salvar o futuro, gente de fora rouba nossas riquezas. E gente perigosa, pois nos ameaçam de morte e possuem armas de grosso calibre”. A conquista do prêmio Direitos Humanos 2004, que rendeu a Benki 10 mil reais, tornou-se uma oportunidade para intensificar projetos na aldeia com o intuito desafiador de levá-lo a outras comunidades. Ele desejava que outros líderes indígenas compreendessem e respeitassem o modo de atuação dos Ashaninka, que ele assim explica: “Trabalhamos com a prevenção, com a gestão ambiental, favoráveis à sustentabilidade dos índios. Trabalhamos o manejo de nossa floresta, rios e outros bens porque é disso que vivemos e devemos preservar”.

Mantenedores

Apoiadores:
Faça Parte:
Doe agora! Seja parceiro!
Acesse:
Facebook CDI
Twitter CDI
YouTube CDI

Membros

© 2013   Criado por CDI.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço

Bookmark and Share